Monday, June 04, 2007
Monday, April 23, 2007
AIDS e órfãos na China
Conversando com amigos no Brasil, descobri que poucos sabem, ou se lembram do escândalo da venda de sangue contaminado nas províncias de Henan e Anhui na China.Esse artigo então é para refrescar a memória desse episódio não tão glorioso da história Chinesa ( para mais informações, leiam o artigo da BBC).
Resumindo rapidamente, autoridades locais autorizaram a compra de sangue em províncias paupérrimas no interior rural. Agricultores pobres viram a oportunidade de fazer um dinheirinho extra e se prestaram "voluntários". Vários venderam sangue repetidas vezes.
Se as condições de higiene tivessem sido respeitadas, o final seria feliz, pois o dinheiro da revenda do sangue trazia um alívio para os camponeses e uma boa comissão para as autoridades locais. Porém, não somente as agulhas estavam contaminadas, mas os agricultores - para não ficarem fracos pela grande quantidade de sangue vendida - foram reinjetados com plasma alheio e contaminado.
Não se sabe ao certo quantas pessoas foram infectadas nessa época, porque o governo fechou as cidades e livrou-as à própria sorte. A BBC estima 600,000.
Hoje estimativas oficiais afirmam existirem 76,000 órfãos (de menos de 18 anos) nessa região. Muitos perderam não somente os pais, mas também tios, irmãos, primos. Uma fundação privada cuida de uma parte dssas crianças: a Chi Heng Foundation. A fundação tenta encontrar lares para essas crianças - normalmente com algum familiar - e fornece uma ajuda à familia e à criança, desde a escola primária até a conclusão de seus estudos na Universidade.
Chi Heng Foundation é a maior organização caritativa trabalhando na região e hoje consegue ajudar 4,000 órfãos. Infelizmente, ainda uma gota d'água.
Friday, September 22, 2006
Tuesday, September 19, 2006
Yangshuo
As porcelanas e as pinturas tradicionais antigas sempre mostram uma sucessão de morros enevoados. Poesias e músicas descrevem a beleza do Li Jiang, o rio verde. Desde os tempos mais antigos, os Chineses veneram essa terra de corcovados esculpidos pelo mar. Sim, esculpidos pelo mar. Se não tivesse matado meus cursos de geologia, explicaria como o calcário sedimenta lentamente e forma essas colinas abauladas, quando a região fazia parte do mar da China, há não sei quantos bilhões de anos. Mas hein? Não sei explicar, não.Guilin é um reflexo desse idolatria. A cidade praticamente não tem indústrias, coisa raríssima na China, mas tem a mão pesada da estrutura comunista. Até o Sheraton, o único hotel internacional da cidade, tem ares de glória vermelha ultrapassada. A província foi a primeira a ser aberta para o turismo e no hotel podemos ver fotos dos vários chefes-de-estado internacionais que desfilaram por ali (incluindo Bush pai e Bill Clinton), obviamente escoltados pela mais alta gama do partido. A nata chinesa também passou por ali.
Uma pena, entretanto, é que passam por Guilin, fazem o cruzeiro no Li Jiang e vão embora. A melhor experiência fica rio abaixo, em Yangshuo. Chegamos em Guilin, como todos, fizemos o cruzeiro também, mas descemos nas margens do rio e ficamos. A região é uma daquelas encruzilhadas de povos, com diversas minorias étnicas. Uma delas se chama "miao". (Não
consegui fazer nenhuma piadinha boa com o nome - podem enviar os que conseguirem). São pigmeus de tamanho, com rosto de criança mesmo quando adultos. Tem sua própria língua e cultura. Uma era tão pequenina que meu marido sentado era mais alto do que ela de pé.Não vimos ninguém vestido em roupa tradicional, haviam várias lojas dessas roupas. Clique aqui para ver. Miao é apenas uma das minorias da região, e é muito interessante ver que até aí os chineses conseguiram mostrar um certo orgulho. Um pouco como brasileiro que acha índio lindo na Amazônia, mas quando tem que defender os seus direitos, língua, costume e cultura, ninguém abre a boca.
A região tem também o "caboclo" chinês, queimado de sol nos arrozais ou na pesca do rio. Vestidos com seus chapéus cônicos, dão o toque bucólico final à paisagem. O tempo parou em Yangshuo, ainda bem. Nada de britadeira, caminhão, construção, trânsito, típicos das cidades chinesas. Só um vilarejo, com seu rio, suas jangadas e suas bicicletas.
Wednesday, July 26, 2006
Proibido pela censura, o decôro e a moral

Nunca imaginei que fosse ter uma sensação assim. Subversiva, revolucionária, quase Cheguevarista. Meu blog foi censurado, barrado, repudiado na China*! Imaginem, meu blog! Não abre! E olha que não tenho idéias libertárias (bom, tenho, mas não ousei exprimi-las aqui).
O que será que pode ter ofendido a alma do partido? É verdade que chamei-os de ogros, mas foi assim, com carinho... (aliás, outro dia um ogro terrorista soltou um pum tão alto na rua que nos deu crise de riso). Falei de Mao, falei do seu Mao-soléu, mas foi com todo respeito ao defunto encerado (de cera mesmo, não está faltando um erre). Fora isso, falei do tempo, da chuva, falei até do Bruce Lee, mas tudo super light, igual maionese da Hellman's.
Já sei, é represália contra os brasileiros. Tanto chinês perdeu dinheiro na Copa do Mundo apostando Yuan na seleção, que estão pensando tomar medidas contra o Brasil. Falaram até de bombardear o Maracanã, mas acham que seria muito drástico, então talvez tomem medidas econômicas: vão parar de vender Luis Xiton na feira do Paraguai. Imaginem! Isso afetaria os altos escalões de Brasília, obrigados(as) a comprar bolsas copiadas, mas legais (no sentido jurídico do termo), da Vitor Hugo.
Mas sério, porque logo eu, sô? Eu não estou aqui fazendo propaganda de liberté, egalité, nem de pão com paté. Está certo que eu não apostei na seleção e desde o primeiro jogo eu falei para tirar aquele saco de batata do meio do campo**, mas não me ouviram! Está aí, escrito no blog, para provar. Ainda bem que tenho um marido francês, que apostou nos bleus. Perdi a honra, mas pelo menos ganhamos uma graninha...
Et vive la révolution!
*PS.I - Quando falo da China, é do continente - deve-se excluir Hong Kong, Macau, Taiwan, Tibet e outras áreas tomadas ou invadidas. Com exceção do Tibet, tem-se maior liberdade de expressão nessas outras áreas.
**PS.II- Mais um comentário post-mortem: Não acho justo usarem o Roberto Carlos (nem meu blog, por sinal) como bode expiatório. Ele não tinha nada que ficar fingindo arrumar a meia para disfarçar uma dor-de-viado, é certo, mas se o Robinho estivesse no lugar daquele lutador de sumô, não teríamos chegado a esse desespero. E tenho dito!
Sunday, July 02, 2006
Pequeno livro vermelho

Estou de volta do meu exílio na Noruega – único país que me ofereceu refúgio do calor – mas os termômetros continuam no mesmo lugar. A umidade deve estar cerca de 95 (mil) por cento. Os meus desumidificadores japoneses (enfim uma brilhante invenção nipônica) encheram em só dez dias. Se fosse boa em cálculo diria exatamente quantos centímetros cúbicos de água isso representa, mas pra quem gosta de brigadeiro, é mais ou menos meia lata de leite Moça. Ou seja, dá fungo até em cacto.
No avião li um artigo muito interessante no International Herald Tribune. Parece que o livrinho vermelho de Mao foi substituído por outro para as Olimpíadas: um manual de ética e boas maneiras. Muito necessário, devo concordar (ver Ogros e Origamis). Não consigo, entretanto, sequer imaginar o trabalho que vai ter essa Danuza Leão chinesa.
Ética, todos sabem que não é o ponto forte dos chineses. Parece que tem até avião da Embraer falsificado (compraram um e fizeram cem). Má educação, no entanto, não é tão conhecida, já que os chineses, ou devo dizer, as chinesas, sempre passaram uma imagem de delicadas bonecas com palitinhos espetados no cabelo. A realidade é muito diferente. Ainda se vêem os palitos, mas de dentes, em todas as bocas depois das refeições. Danuza, não venha nunca à
Não sei se o livrinho ensina os chineses a respeitar a fila, mas espero que sim. Outro dia cutuquei um que passou na minha frente. Ele foi para trás,
O artigo também falava da mania que os chineses (com exceção de
Friday, June 02, 2006
Ogros e Origamis

A imagem do cobrador do trem que, ao entrar e sair do vagão, reclina o tronco em um ângulo de 45o graus em uma saudação típica japonesa, foi uma das mais marcantes da minha viagem àquele país no ano passado. Essa imagem é da personificação do respeito por outrem, desenvolvida durante séculos de convívio amontoados em uma pequena ilha. No Japão, os códigos de conduta são inflexíveis, a ponto de podar a liberdade do indivíduo para o bem da sociedade.
A China e seu bilhão de pessoas, desenvolveram um sistema contrário. A convivência de grande número de pessoas apertadas em pequenos espaços, transformou o chinês em algo exatamente contrário à delicadeza japonesa.
Chateada com a notícia da morte de um amigo e incomodada pelo calor húmido e poluído de Pequim, visitei a Cidade Proibida sem prestar atenção nos detalhes arquitetônicos. Ao invés disso, focalizei nas hordas de turistas chineses guiados por megafones esgoelantes que invadiram o palácio imperial naquele dia.
Facilmente identificáveis por seus bonés idênticos (sempre vermelhos ou amarelos) os grupos avançavam como cidade fosse desabar aquela noite (o que é, em parte, verdade, já que o governo está pondo abaixo e “restaurando” partes da Cidade Proibida para as Olimpíadas). Disputei a cotovelos meu lugar para ver as salas do trono; evitei cuspes e tossidas e prendi a respiração várias vezes, até que desisti e fui sentar-me debaixo de uma árvore, onde pude observar a manada de longe.
Assim entendi que o Japão, para possibilitar a convivência de tantas pessoas em espaço restrito, codificou a conduta social ao extremo. A China, ao contrário, retirou todo o bom senso dos seus cidadãos. Ninguém se incomoda, porque não aprenderam a serem incomodados.
Chegando a essa conclusão, me senti em paz com a minha curiosidade e passei a observar um senhor franzino e franzido que lentamente caminhava na minha direção. Tão dobrado que só conseguia olhar para o sapato gasto. Se preparou para sentar do meu lado, mas antes disso, me olhou nos olhos, cuspiu e arrotou orgulhoso o almoço do dia. Como um ogro de origami.



